Professores e alunos

Publicado: 20/05/2015 por Cinthia Almeida em Crônicas e Artigos

professor e alunos

 

Escrever sobre essa relação tão intensa, não só no sentido amoroso, mas em todos os sentidos, não é algo fácil para um profissional dotado de uma bagagem bem ampla e rica, como um professor aposentado, quem dirá para um ser como eu, que sonha em ser professora há tão pouco tempo.

Minha primeira formação é na área da Comunicação Social, sou Jornalista. Antes mesmo de começar a vida universitária, eu já sabia que o meu objetivo maior era ser Socióloga, mas para isso, eu gostaria de ter mais uma profissão como base, para garantir o respeito, que na minha visão, não existe no Brasil. Nosso país não enxerga o Sociólogo como um profissional essencial para entender sua complexidade.

Esse artigo não é sobre Sociologia, mas não tem como falar da relação de professor e aluno, sem voltar nas minhas escolhas de aluna, inspiradas e estimuladas por professores. Na faculdade de Jornalismo, meu professor de Filosofia e Sociologia foi o primeiro em toda a minha vida a me falar: “Vá para as salas de aula! Precisamos de pessoas como você, que acreditam na Educação de Qualidade para mudar o pensamento humano.”

Quando eu o ouvi, confesso que me surpreendi e parei para pensar: Eu, professora! Será? Todo questionamento requer uma possibilidade, ou várias possibilidades de respostas, para se tornar uma ideia, e mais tarde ser tornar uma realidade. E com isso, observar e analisar o papel do educador no contexto escolar, passou a ser a minha rotina.

Não me recordava dos meus professores do colégio, só dos professores dos Ensino Médio e Superior, mas esses já me bastaram como objetos de análise. Depois de muito observar, questionar, relembrar, traçar as rotas, cheguei a conclusão pessoal, obviamente, que de fato, o professor tem como missão, tentar plantar uma semente em “terrenos adubados” e com isso, deixar que o futuro colha o melhor fruto que árvore puder dar.

Trazendo essa reflexão pessoal para o artigo acadêmico, depois da leitura do material disponibilizado em minhas aulas de Psicologia da Educação, que só confirmou, de forma científica, conceitos que eu já tinha construído mentalmente por meio de minha análise e observação, a relação Professor e Aluno é intensa, como dito no começo, por se tratar de uma relação “a dois” e ao mesmo tempo coletiva. Quando o indivíduo decide se tornar professor, ele entende que muita coisa que envolve o desenvolvimento de um ser humano, passa a ser parte da vida dele. Conviver com diferentes realidades e ter que tornar o conhecimento nivelado a todos, é o grande desafio do Educador, visto que, o Educando só tem uma única preocupação: assimilar de forma individual tudo que lhe é passado, não importa os demais.

O professor é o verdadeiro herói de uma nação, por ter a condição de armar e desarmar seus alunos, sem sequer tocar em armas. Tudo que ele faz e fala está sendo observado e será repetido, reproduzido, passado para frente, das mais diferentes formas. Ora como exemplo a ser seguido, ora como o vilão da história.

A condição emocional do Educador é essencial para o bom andamento do aprendizado do educando, pois, o aluno pode chegar com fome e falar: “Não tomei café da manhã, por isso não consigo prestar atenção na aula, tenho fome!” E ele não terá o alimento para saciar essa fome, e mesmo que tenha, se toda sala estiver com fome e em todas as aulas, como ele fará para “sustentar” essa situação? Ter uma autoridade que conduz e que não impõe o conhecimento, é mais um desafio do Educador. É necessário se colocar como uma autoridade presente em sala, mas sem afastar o aluno dele, pois, uma mente longe do conhecimento, pode significar uma mente perdida e sem volta.

Muitas vezes, o Educador é visto como uma possibilidade de substituição dos pais, quando o aluno tem um contexto familiar complicado, marcado pelo abandono afetivo dos pais e familiares, ele busca na escola suprir essa carência. Estar aberto para ouvir os problemas sem se envolver sentimentalmente, buscar a solução sem quebrar a confiança depositada pelo educando, e ao mesmo tempo, ser o professor que vai exigir disciplina e boas notas, mesmo sabendo dos problemas paralelos à aula. Mais uma tarefa para o herói Professor.

Abordar temas necessários, mas que ao mesmo tempo podem causar desconforto e até problemas com os pais. Ter a liberdade de expressão, pode não significar ter liberdade de se expressar. Mas devemos, enquanto professores, omitir alguns fatos em nome da ordem estudantil e a paz entre pais e escola? Perceber a linha que separa a realidade social da criação social que cada educando tem, é algo que muitas vezes passa batido pelo Educador, provocando conflitos, que muitas vezes, trespassa as salas de aula, chegam nas famílias e distanciam ainda mais os três elementos que se complementam, quando falamos no desenvolvimento intelectual e social de um ser humano: escola, pais e mestres. Como relatado no livro de Durkhein (Educação e Sociologia), as crianças têm nos adultos (pais e professores) referências de comportamento e conduta moral. Se isso se perder, as crianças crescem confusas sem saber distinguir as coisas, ou seja, fica claro o que já deveríamos ter como certeza em nossas mentes, se pais não se entendem com os professores, as crianças e adolescentes, irão achar que nada faz sentido e que tudo será sempre uma grande confusão. Os heróis de nossos pequenos são os adultos!

A preocupação de como colocar os temas em aula e de como será passado o conteúdo, previamente escolhido, é função do professor. Por isso, seu entendimento social, seus gostos, suas escolhas pessoais, suas orientações religiosas, tudo que o torna um cidadão, tem que ser deixado cuidadosamente do lado de fora da sala. Em aula, o professor é um objeto neutro, que abordará os mais diversos temas e terá que responder os mais diversos questionamentos.

Encontrar a linha que separa o cidadão do profissional é algo importante, quando se decide ter a profissão de Educador, pois, o educando, por ter sua mente em fase de desenvolvimento, pode levar tudo que ele observa, ouve e analisa das suas referências, como verdades absolutas. E se essas verdades conflitam com sua realidade social, o educando pode criar um mundo muito negativo, onde tudo o que ele vê é contrário ao que é ensinado, ou positivo demais, onde ele tem a confirmação de tudo que vê e acha que vive em um mundo perfeito.

O equilíbrio, a imparcialidade, a neutralidade de sentimentos, têm que fazer parte do relacionamento entre aluno e professor, que é baseada, o tempo todo, em ensinar e aprender. E quando digo ensinar e aprender, não estou apenas falando da via: de Professor (ensinar) para Aluno (aprender), mas também da via: de Aluno (ensinar) para Professor (aprender). Termino meu artigo com palavra de Paulo Freire, que é um inspirador do amor a Educação de Qualidade em todas as esferas, e que amarra a responsabilidade dessa relação tão marcante:

“Não devemos chamar o povo à escola para receber instruções, postulados, receitas, ameaças, repressões e punições, mas para participar coletivamente da construção de um saber que vai além do saber de pura experiência feito, que leve em conta as suas necessidades e o torne instrumento de luta, possibilitando-lhe transformar-se em sujeito de sua própria história.”

 

Calvin na sala de aula

Mafalda e Quino sala de aula

Calvin sala de aula matemática

Por Cinthia Almeida

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