Boas vindas também é sinônimo de solidariedade

Publicado: 21/09/2008 por Cinthia Almeida em Universitário
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Há quem diga que o trote é uma demonstração de violência. Outros dizem que é uma recepção calorosa aos novos estudantes 

 

A palavra “trote” se refere a uma das formas de movimento do cavalo, que fica entre os movimentos “passo” (mais lento) e o “galope” (mais forte). Para aprender a trotar, ele tem que ser adestrado (muitas vezes a chicotadas e esporadas), pois não é uma andadura normal e habitual. 

Partindo deste conceito, o trote universitário ou estudantil surgiu junto com as primeiras universidades, na Europa da Idade Média, em que os calouros eram separados dos veteranos e proibidos de assistirem as aulas nas salas, sendo permitido apenas o acesso aos seus vestíbulos (palavra que originou o termo “vestibulando”, que designa os novatos).

No século XIV, nas universidades de Bolonha, Paris e, principalmente, Heidelberg, Alemanha, os trotes se transformaram em rituais desonrosos, com nítida conotação sadomasoquista. Os calouros, reclassificados como “feras” pelos veteranos, bebiam urina e tinham os pêlos e cabelos arrancados.

Van Gennep, antropólogo francês, criou o conceito “rito de passagem”, classificando-o em três etapas: Separação (funerais), Agregação (casamento) e Margem (iniciação). 

Segundo o Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Paulo Denisar Vasconcelos Fraga, no ponto de vista da antropologia cultural o trote pode ser classificado como um ritual de passagem de margem.

Em entrevista ao site da revista Época, Fraga diz ser contra a violência praticada em trotes: “Os rituais têm o papel de preservar a cultura existente nas sociedades, mas o trote é o avesso disso. Ele não conserva a cultura, a ciência e a razão, as bases da universidade. Também perverte o sentido da alegria. O trote inicia na barbarização e contraria a essência da relação pedagógica, que é educar os novatos. Eles são execrados, sofrem o escárnio e o deboche.” Fraga explica também o fato dele sobreviver: “Ele ainda existe porque é a expressão e o reforço da estratificação social. Como nós vivemos num mundo em que o trabalho intelectual vale muito mais que o manual, mesmo um calouro vestido de palhaço pode exibir na praça seu novo status. Um universitário é supostamente superior ao cidadão que não teve essa oportunidade. O trote sobrevive porque os calouros aceitam e repetem as idéias dos veteranos.”

Trote no século XXI

Atualmente eles são tidos como ações violentas e até desumanos, perdendo a sua principal característica, que é o de dar as “boas-vindas” ao novo universitário. Um exemplo foi o caso de Carlos Alberto de Souza, 20 anos, estudante de Jornalismo da Universidade de Mogi das Cruzes (SP), que em 1980 morreu de traumatismo cranioencefálico, resultante das agressões praticadas por veteranos.

Outro caso que ficou conhecido na mídia, em 1999, foi o do estudante Edson Tsung Chi Hsueh, 22 anos. Aprovado na Faculdade de Medicina da USP, o calouro foi encontrado morto na piscina da Associação Atlética Osvaldo Cruz, após uma festa promovida pelos veteranos.

Entrar para a universidade é um sonho almejado por muitos jovens. No Brasil, apenas 10% cursam o Ensino Superior, e a preocupação com o início das aulas é comum, pois o ambiente é novo e as opiniões são bem diversificadas entre os estudantes. “No meu primeiro dia de aula, além da ansiedade, eu tinha um pouco de medo, pois não sabia como seria a recepção”, diz  a estudante de jornalismo da UniSant’Anna Fernanda Carneiro, 23 anos. E complementa, dizendo que o trote é totalmente desnecessário, porque expõe o calouro a uma situação constrangedora. Já o veterano que cursa o 4º semestre jornalismo Tiago Araújo, 21 anos,  tem uma opinião positiva sobre o ritual: “Acho uma brincadeira saudável, desde que não haja nenhum ato de agressividade. Serve para quebrar o gelo entre os novatos e veteranos, e para saudar um novo caminho que se inicia.”

Novas iniciativas

Reverter essa imagem é um dos objetivos da UniSant’Anna. Através do “Trote Solidário”, os calouros são recebidos por veteranos e professores com a finalidade de promover a interação de maneira consciente e descontraída. A última campanha realizada foi em março de 2008. 

A “Ação Trote Solidário” arrecadou alimentos que foram doados para a entidade Amigos do Bem. “Fico feliz com o envolvimento dos alunos em ações sociais”, afirma o Professor Leonardo Placucci, reitor da instituição. Durante duas semanas os calouros e veteranos doaram pacotes de feijão, arroz, entre outros suprimentos. O engajamento nesta campanha caracterizou a sensibilização dos alunos para as ações de cidadania e para as questões de responsabilidade social. A universidade atribuiu uma hora de atividade complementar para cada doação de um pacote de feijão ou de arroz, pois era a maior necessidade da ONG.

O ‘Trote Solidário’ da UniSant’Anna foi integrado à ‘Semana de Ambientação dos Calouros’ e teve a finalidade de estreitar a relação entre os estudantes e professores da instituição. “Ações como essas mostram que é possível fazer a diferença, e que problemas têm solução, sim. Depende apenas de atitude. Como diz Sebastião Salgado: “Falta discussão universal e empenho das classes sociais””, diz o formando em jornalismo pela UniSant’Anna, Evili Rocha.

Por Cinthia Almeida

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comentários
  1. Luciana Guedes disse:

    Trote + quero mostrar que sou maioral= estupidez

    Pq as pessoas não fazem algo mais prático…??

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