Hoje em dia está mais comum ler e ver notícias tão bem elaboradas. Disfarces para opiniões e visões políticas. Basta olhar nossa imprensa e analisar. Onde está o interesse público no que é noticiado?
A revista Época se tornou um exemplo, não posso afirmar se é a primeira vez ou não, afinal, não sou leitora da Época, mas esta semana a matéria “Virei sem-terra e entrei na faculdade”, nos leva, profissional da área e leitores, a refletir sobre alguns conceitos de jornalismo ensinados na faculdade.
Como manter a tal imparcialidade sendo você, o jornalista, personagem da matéria? Como escrever uma matéria sem fontes, sem nomes, sem testemunhas dos lados A, B, C, D e infinito?
Insinuar fatos relacionados à religião e a política usando argumentos totalmente sem foco, além de não condizer com a postura de um jornalista, que na teoria tem que “ser o porta-voz do povo”, vai contra aos interesses da população.
Vamos então direto ao foco. A matéria “Virei sem-terra e entrei na faculdade” da revista Época desta semana (25/01), assinada por Mariana Sanches, abordou a seguinte questão: uma associação que concede descontos em faculdades para pessoas que são filiadas a ela.
Qual o problema que a jornalista encontrou?
A associação faz parte do movimento por moradia urbana cujo nome herdado é ATST (Associação dos Trabalhadores Sem-Terra), tem como líder e fundador um deputado do PSDB e origem católica, uma vez que o movimento nasceu dentro da igreja e “ganhou o mundo” após seu crescimento.
Qual foi o crime ou a notícia que rendeu seis páginas na revista?
A associação concede descontos em faculdades.
Qual foi o foco real da matéria?
Mostrar que o PSDB tem um pseudo “MST Tucano”, afinal estamos em ano de eleição e a imprensa precisa mostrar de que lado está.
Eis a questão. De que lado está nossa imprensa brasileira?
É inadmissível num país como o Brasil, que investe na educação de base, garantindo uma disputa mais justa entre os vestibulandos de ensino público e privado, que possui universidades públicas com vagas destinadas prioritariamente àqueles que nunca pagaram pelos estudos, e projetos de lei que facilitam o ingresso de alunos em faculdades particulares, uma vez que, a quantidade de pessoas é maior do que instituições de ensino superior e outras benfeitorias políticas. Não é Época?
Com que direito um deputado mobiliza um movimento como esse, no qual, pessoas de baixa renda adquire o direito de tentar ingressar no ensino superior? Digo tentar por conta do vestibular. Sim, todos os jovens filiados, mesmo com o desconto, prestam o vestibular, pagam a taxa de inscrição e as mensalidades referentes à duração do seu curso. Insuportável é ler uma matéria na qual, funcionários são citados e nem ao menos são identificados, por que isso aconteceu? Não sei, será que eles não falaram oficialmente com a jornalista? Ou só comentaram o fato e ela, sem pedir licença, publicou: “Funcionários das faculdades afirmam que descontos dessa magnitude são inatingíveis para quem não se matricula como sem-terra” (trecho da matéria). É, tudo pode acontecer. Para que serve a credibilidade numa matéria?
Cadê o depoimento de, pelo menos, um aluno dos 70 mil participantes da associação? Usar a própria experiência como fonte única para relatar um fato é complicado, uma vez que, a importância está em apenas fazer a matéria e não realizar a tão sonhada graduação.
Deixar a matéria com lacunas também é grave, pois o fato é o desconto, certo? E a conclusão, que seria o restante do dinheiro, quem paga? A resposta é simples, e ela mesma poderia ter respondido, já que passou por todos os processos. Quem custea todos os gastos do curso, já com o desconto, é o aluno.
Quem mantém o movimento? Outra resposta mais simples ainda. Ninguém mantém, pois para os desinformados, inclusive a própria Época, a taxa que é cobrada serve para pagar os alugueis dos imóveis que são utilizados para fazer as reuniões e também para ajudar no movimento de moradia, afinal, é só o desconto que é dado, apenas isso, negociação com as faculdades. Ok, são 6 milhões arrecadados, tirando a inadimplência cai para R$ 3 milhões, para onde vai todo esse dinheiro? Essa sim seria uma pauta relevante. E não questionar o desconto propriamente dito.
Dinheiro público é envolvido neste movimento, que, aliás, tem nome próprio, “Faculdade para todos”, e não “sem-terra”? É só investigar melhor, que a jornalista não teria deixado passar essa. Nenhum dinheiro é usado neste movimento, a não ser a taxa de manutenção, que tem o valor de R$ 7,00 por mês. Se isso é crime, prendam todos os representantes de movimento por moradia de São Paulo, pois todos eles cobram taxa de manutenção.
Associar um movimento que existe há anos ao “Faculdade para todos” é uma falta de respeito com a ideologia alheia e uma invasão, e neste caso, pior que a de terras, de privacidade. Afinal, as pessoas têm o direito de acreditar no que quiserem, não de usar com violência, como muitos fazem, mas isso é capítulo à parte.
Meu texto está tão parcial quanto ao da Srta. Mariana Sanches. É proposital, temos que buscar sempre o equilíbrio, já que a imparcialidade é uma ideologia. O ser humano não é, e nunca vai ser, imparcial em nenhuma questão. Isso é fato, mas o respeito ao próximo ainda é válido.
Por Cinthia Almeida