Distribuição de comida e roupas são gestos que melhoram o cotidiano dos moradores de rua

Por Cinthia Almeida
Sábado dia 07 de junho, o sol está presente no céu, a mãe limpa seu filho, roupas estendidas no varal, todos os bancos da praça estão ocupados por moradores que ali estão. Jogando conversa fora, observando as pessoas que estão dentro dos ônibus, que por sua vez, retribui com um olhar duro e frio. Os carros que passam apressados, que não percebem que estão entrando na “casa” de cidadãos que não são vistos pela sociedade. O cenário e moradia desses anônimos é a Praça Olavo Egídio, que fica no encontro da Av. Cruzeiro do Sul com a Rua Conselheiro Saraiva, em Santana
Na “varanda” da casa, que tem vista para a Estação Santana do metrô, está sentado um homem. Com uma camiseta laranja, calça batida de cor preta desbotada, mala na mão e o olhar perdido, é seu Wilson Guimarães, 64 anos, sendo 43 em São Paulo, veio Bahia com um sonho de trabalhar e vencer na vida. Constituiu família, teve filhos, porém, não tem contato com mais ninguém. Hoje, vai até a praça para receber a ajuda de estranhos. “Não acho legal fazer uma reportagem sobre nós aqui da praça”, diz Wilson, com um tom sério. “As pessoas passam, e acham que nós somos vagabundos, e que não temos vergonha na cara. Muitos de nós temos um motivo para estar aqui.” Faltando um pouco mais de um ano para se aposentar, Wilson vai todos os dias à praça, para receber a comida que é distribuída. “Acho muito legal a ajuda dessas pessoas, pois se não fossem elas, eu não teria o que comer. Venho porque não tenho dinheiro e não quero depender de ninguém,” finaliza.
O Expresso da Solidariedade é um projeto realizado pela Fundação Renascer em Cristo – Santana (Av. Ataliba Leonel, 1111), que tem como objetivo ir ao encontro de pessoas carentes, que têm a rua como seus lares, para levar assistência social. Todos os dias, no período da tarde, um grupo de freqüentadores da igreja, se reveza e faze o trajeto que parte da Praça Olavo Egídio e vai até a Estação Armênia do metrô. Por onde eles passam, os moradores de rua são contemplados com o gesto de solidariedade. Para isso, equipou 12 ônibus, que percorrem não só a região de Santana, mas também outros bairros da capital paulista, e da Grande São Paulo. Distribuindo aproximadamente 100 mil refeições por mês, além de roupas e cestas básicas às comunidades, os veículos do Expresso foram especialmente projetados para dar atendimento odontológico e médico, além da distribuição de comida e oferece apoio psicológico e ajuda para a reintegração social dessas pessoas.
A pastora Roseli, que é um das coordenadoras do projeto, diz que é um fruto do manifesto de solidariedade, um testemunho vivo: “Hoje eu vou e faço o que um dia a Igreja fez por mim, pois eu fui moradora de rua, e fiquei muitos anos na praça contando apenas com a ajuda dos pastores.”, relata.
“Devolver a dignidade e o respeito humano, são coisas difíceis de serem feitas às pessoas que não sabem mais viver dentro da “sociedade”’, justifica Roseli, ao dizer que ainda encontra muitas pessoas que dividiram o chão com ela: “Hoje, chego à praça e pergunto para os meus conhecidos quando eles irão mudar de vida e se reerguer, e muitos falam que é duro ter que olhar para as pessoas que os rejeitam e mostrar que se dessem uma oportunidade, eles mudariam.” Ela completa, dizendo que é mais fácil viver na conveniência do papel de pedinte, do que encarar todo o preconceito que é gerado em torno dos moradores de rua.
Muitas dessas pessoas são anônimas para a sociedade, mas dentro de cada uma delas há uma história de vida. Muitos se deram bem e deixaram-se levar pelo deslumbramento que o dinheiro traz; outros nasceram pobres e encontram “segurança” nas ruas. “Doar comida vai muito além do gesto, é apenas um complemento”, diz Roseli, “pois, o conversar, o prestar atenção e o compreender, ainda são gestos essências e que fazem a diferença entre permanecer na miséria e sofrimento das ruas e mudar de vida e se sentir acolhido.”
Iniciativas como a da Igreja Renascer deve ser tida como exemplo para grandes empresas e instituições, que queiram colocar em prática sua responsabilidade, pois fazendo cada um a sua parte, o resultado será uma sociedade mais humana e preocupada com o próximo.
Fotos: Cinthia Almeida